27set-Foto Vitor Silva JB 01Os santos católicos São Cosme e São Damião são bem conhecidos no Brasil, não é mesmo? Principalmente por cristãos e umbandistas, que no dia 27 de setembro fazem festas e distribuem doces para as crianças pelos bairros. Mas é comum vermos em pequenas esculturas uma figura acrescentada no meio dos dois santos: Doum. Mas quem é Doum se este não aparece em nenhuma parte da história de São Cosme e São Damião?

Já li algumas estórias que tentam explicar a origem de Doum, mas nenhuma delas é muito fiel à história dos santos. Em uma dizem que eram trigêmeos e Doum teria morrido e por isso os outros dois se tornaram médicos; em outra Doum seria uma criança que foi salva pelos irmãos médicos; em outra além de salvarem a criança também a adotaram. Mas se Doum não aparece em nenhuma literatura cristã e estas estórias são fantasiosas, de onde afinal surgiu Doum?

ibeji-womanA resposta é bem simples: surgiu a partir do sincretismo entre a doutrina católica e o culto aos orixás africanos, ou seja, Doum é yorubá. Todo mundo já sabe que na época da escravatura no Brasil, os escravos africanos criaram uma maneira bem criativa de enganar os senhores: identificaram os orixás com os santos cristãos. E assim São Cosme e São Damião eram para eles o orixá Ibeji. E é daí que vem a origem de Doum, mas antes de falar de Doum, precisamos entender Ibeji.

Em yorubá, Ìbejì literalmente quer dizer “Nascimento Duplo”, é como são chamados os gêmeos em terras yorubá. Os yorubá acreditam que cada pessoa que nasce na Terra, deixa um duplo no Céu (Ọ̀run), que fica na espera daquele que veio a Terra (Àiyé) voltar. Por muito tempo acreditaram que o nascimento de gêmeos não era algo bom, já que, os dois (a pessoa e o duplo) vinham do Céu para a Terra. Era algo negativo, desequilibrado. E por esse motivo, nos primórdios da civilização yorubá os gêmeos eram sacrificados (inicialmente os dois, depois apenas um), com a crença de que mandariam de volta para o Ọ̀run (Céu) aquele que veio para o Àiyé (Terra) indevidamente.

IbejiMas segundo um mito sagrado dos yorubás (Ìtàn), na época em que os gêmeos ainda eram sacrificados, um casal teve filhos gêmeos (Ìbejì). Este casal era Yansã e Xangô, orixás cultuados pelos yorubá. E por amarem muito suas crianças e não desejarem sacrificá-las, procuraram Ifá (o oráculo sagrado) para darem um melhor caminho aos seus filhos que não a morte. Orumilá (Ọ̀rúnmìlà), divindade que é a testemunha de todos os destinos, declarou então através do oráculo que as crianças não deveriam ser sacrificadas. Nem elas e nenhum outro Ìbejì que viesse a nascer no mundo. Declarou ainda, que o “duplo nascimento” a partir de então não deveria ser mais motivo de tristeza e de má sorte, pelo contrário, deveria ser um orgulho, uma honra e uma enorme alegria para os pais dos gêmeos e para seus familiares, pois, significava a vinda de seres de muita sorte (axé) para o âmbito familiar. E determinou que os pais dos gêmeos deveriam festejar o nascimento deles por toda a cidade, e que toda pessoa que cruzasse com os Ìbejì (gêmeos) deveriam presentear-lhes. Ibeji foi então elevado à condição de divindade.

“Cosme e Damião, Damião cadê Doum?
Doum foi passear no cavalo de Ogum!”

Cantiga de Umbanda

Ainda segundo a tradição yorubá, todo filho que nascia após os gêmeos era chamado de idowu (o nascido após os gêmeos) e era protegido por Ibeji, o que não significa que este também tenha sido elevado à condição de divindade. E então, idowo acabou virando doum aqui no Brasil. Devido simplesmente às dificuldades de pronuncia da língua yorubá.

Você gostou do texto? Que tal compartilhar e nos seguir?