2015-825481799-2015061629598.jpg_20150616O caso de intolerância religiosa sofrida há alguns meses (junho/2015) por uma menina de 11 anos que foi agredida por ser adepta do Candomblé, ganhou uma grande repercussão nacional. Políticos, líderes religiosos e pessoas comuns vieram a público, principalmente através das redes sociais, manifestando seu repúdio ao preconceito e à intolerância. No final das contas a agressão sofrida pela menina está tendo um resultado positivo, trazendo à tona a discussão sobre o papel das verdadeiras religiões e de seus líderes.

apedrejamento-mao-com-pedraMas até que ponto esta lição está sendo entendida por nós? Estamos refletindo realmente sobre o preconceito e a intolerância, ou estamos apenas condenando os preconceituosos e intolerantes?  Obviamente condenamos os atos daqueles “religiosos” que apedrejaram a menina! Mas podemos condenar esta ou aquela religião com base na atitude destes adeptos? Podemos julgar o todo pela parte? Ao fazê-lo não estaríamos sendo de igual modo preconceituosos? E por vezes não estaríamos sendo preconceituosos dentro de nossa própria religião?

Acredito que todos irão concordar que nenhuma religião prega a intolerância. Não podemos imaginar uma instituição religiosa que incite a violência ou atos discriminatórios de qualquer natureza, contra quem quer que seja. Caso contrário deve simplesmente ser denunciada às autoridades como uma instituição fraudulenta… Mas sabemos que adeptos e líderes de todas as religiões são pessoas, e pessoas são sujeitas ao erro. Erros de interpretação de livros sagrados, erros de julgamento, erros de comunicação.

Mas afinal o que é essa tal intolerância e esse tal preconceito?

PG_gandhimovie_2ndPrimeiro devemos entender que intolerância não é o mesmo que discordância. É claro que podemos discordar dos outros! Podemos entender melhor o que é intolerância se entendermos o seu oposto: tolerância. Em termos simples, tolerar significa “discordar pacificamente”. Ora, então intolerância é discordar de modo não-pacífico, o que não se encaixa no contexto religioso.

Já o preconceito é um juízo preconcebido, um julgamento prévio sobre pessoas, culturas, lugares ou tradições considerados diferentes ou estranhos. Geralmente é acompanhado de atitudes discriminatórias, mas nem sempre! É comum as pessoas terem algum tipo de preconceito não declarado, por medo de serem criticadas ou até mesmo excluídas de certos grupos. E o mesmo acontece quando acompanham o “senso comum” e se deixam influenciar, agindo de forma discriminatória mesmo quando no seu íntimo não sentem desta maneira.

O medo e a ignorância (no sentido de ignorar mesmo) também podem ser origem do próprio preconceito. Imagine que você é um cristão sem nenhum conhecimento de outras religiões e filosofias. jesus_x_diaboDe repente se depara com uma imagem de exú numa loja. Obviamente você vai associar aquela imagem ao diabo descrito pela igreja católica e vai considerar que os candomblecistas e umbandistas cultuam o diabo. É natural que pense assim, pois associou aquela imagem a algo negativo que você conhecia. Você não sabe que para os candomblecistas e umbandistas exú não tem o mesmo significado que o diabo para os cristãos. Você não sabe (e nem quer saber) por que tem medo! E esse medo te leva a “discordar pacificamente” atravessando a rua e fazendo o sinal da cruz.

Mas o que aconteceria se uma liderança religiosa de sua igreja subisse ao púlpito toda semana e fizesse um discurso inflamado incentivando a todos a “combater o mal” em nome de Deus? Sua atitude continuaria sendo de discordância pacífica? E se católicos, muçulmanos, judeus, candomblecistas e umbandistas, também por ignorância e incentivados por seus líderes religiosos, resolvessem “combater o mal” das outras religiões? Sim, alguns “muçulmanos” fazem isto atualmente no oriente médio e se intitulam Estado cropped-estado-islamicoIslâmico. Alguns judeus e muçulmanos também fazem isto atualmente gerando uma guerra na Palestina que já dura mais de 60 anos. No passado Adolph Hitler gerou uma guerra mundial a partir de um discurso de intolerância contra judeus, ciganos e todos os não-arianos por serem preconceituosamente considerados “diferentes”, estranhos por suas crenças e valores. De igual modo Jesus e os primeiros cristãos foram alvo do preconceito e da intolerância do Império Romano. Mais tarde, com as Cruzadas, todos os não-cristãos foram considerados hereges e também foram alvo de preconceito e intolerância.

E no Brasil de hoje… Será que existe algum líder religioso subindo ao púlpito para incentivar os fiéis a “combater o mal” em nome de Deus? Não acredito… Mas qual a sua atitude se ouvisse um discurso de intolerância? Acreditaria que Deus realmente está dizendo que você (não o próprio líder) é responsável pela erradicação do mal através da violência? Ou agiria de acordo com sua própria consciência, entendendo que nenhuma religião pode ser assim considerada se não pregar a paz, o amor, a compaixão e outros valores éticos universais que se contrapõem ao preconceito e à intolerância?

 

 

 

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