Atualmente ainda temos muitos casos de intolerância religiosa. Isso não acontece apenas no Brasil, e as vítimas não são apenas os praticantes de religiões de matriz africana. Se estudarmos um pouco a história, veremos que muçulmanos, judeus, budistas, cristãos e adeptos de outras religiões também já foram (muitos ainda são) vítimas da intolerância religiosa.  A intolerância já gerou muitas guerras, massacres e o fim de muitos cultos e religiões. Mas o caso do culto aos orixás é admirável. A inteligência e criatividade dos africanos que vieram escravizados para o Brasil e outros países da américa latina, tornou possível a sobrevivência deste culto.

Nesse texto resolvi começar a falar especificamente do culto aos orixás, e não de religiões. Mais à frente vocês vão entender o motivo! Mas antes preciso falar um pouquinho sobre a história dessa migração forçada dos povos africanos.

Todos sabemos um pouco sobre essa história, não é mesmo? Os europeus iam lá na África e traziam milhares de africanos para as américas como escravos. Sabemos também que aqueles europeus eram em sua maioria católicos. E além disto, sabemos que a Igreja Católica, além de ser uma religião, era uma grande potência política, pois influenciava reis, rainhas, imperadores…. Não bastava para os colonizadores tomar as terras e riquezas dos povos das américas e da África. Eles precisavam catequisar, implantar a religião deles na cabeça e no coração dos selvagens.

Mas os negros escravizados, assim como os indígenas destas terras, não estavam dispostos a abandonar seus deuses tão facilmente. E foi assim que começaram a se organizar para um movimento de resistência religiosa.

“A participação dos antigos africanos yorubá aqui trazidos, em meados de 1820, cientes de sua permanência pelos laços familiares criados, começou a se organizar em pequenas reuniões, desejosos de estabelecerem um sistema de trabalho religioso que mantivesse vivas suas tradições. Foram discutidos o modelo do culto, os ritos que seriam empregados e os que deveriam ser abolidos, por não se enquadrarem com a forma cultural da terra. Foi um trabalho em que a oralidade procurou construir uma tradição própria.” (…)

Òrun-Áiyé, José Beniste

Ilustração de Debret

É neste momento que surge o candomblé. Mas nesse início ainda não tinha esse nome. Eram apenas tradições yorubá trazidas pelos escravos e adaptadas à realidade de um Brasil Colônia (quase Império). Era o culto aos orixás apenas. Mas os senhores de escravos eram cruéis com aqueles que teimavam em não seguir a religião “oficial”….  Era preciso fingir que estavam rezando para os santos católicos, era preciso fingir que estavam convertidos ao catolicismo. E é isso que chamamos de sincretismo. Mas estes povos africanos e indígenas não inventaram uma nova religião. Eles continuavam cultuando seus orixás e antepassados, mas de uma maneira diferente! E lentamente foram adaptando o culto à sua nova realidade. Estavam escravizados e impedidos de fazer tudo o que faziam em suas terras de origem. E eram forçados a conviver com outros povos africanos, que tinham cultos, idiomas e tradições semelhantes, mas não idênticas.

Lentamente os cultos africanos foram se modificando (ver Òrun-Áiyé de José Beniste) e se tornando algo que aparentemente era uma nova religião: o candomblé. Mas ainda hoje existem características diferentes entre os “candomblés”. Não, não existe um candomblé apenas! Temos candomblé de Angola, de Ketu, de Jeje…. Depende da região ou cidade africana que vieram aqueles primeiros africanos e de onde se estabeleceram.

Mas permanecia a intolerância religiosa aos cultos africanos. Mesmo depois de muito tempo. Mesmo após a abolição da escravatura. A Igreja Católica continuava tendo uma grande influência sobre os governantes, e acreditavam que deviam converter a todos a qualquer custo. Não existia nenhum respeito à cultura e a religiosidade de outros povos. Mas os orixás e ancestrais continuavam sendo cultuados, agora através dos candomblés.

E eis que surge a umbanda.

Não… A umbanda na verdade não surgiu do nada. Sabe aqueles primeiros negros africanos que chegaram no Brasil? Sabe aqueles primeiros indígenas nativos que também foram escravizados pelos colonizadores? Eles morreram. Afinal se passaram muitos anos. Mas em algum momento que não foi registrado pela história passaram a incorporar em alguns médiuns para passar seus ensinamentos, mensagens e auxiliar na vida espiritual das pessoas. Muitos deles, que praticavam a medicina das ervas enquanto eram vivos, passaram a incorporar para tratar os doentes e ensinar este conhecimento. Outros tinham sido em vida babalaôs, babalorixás, yalorixás e vinham como espíritos para a ajuda espiritual e o alívio do sofrimento material dos seus descendentes.

Mas do mesmo modo que o candomblé, a Umbanda ainda não tinha esse nome. Eram apenas caboclos (espíritos de indígenas) e pretos-velhos (espíritos de escravos africanos) que vinham aqui e acolá para trabalhar pela caridade. Veja que esses casos de incorporação começaram a acontecer por aqui no final do século XIX. Ainda existia uma grande intolerância e perseguição a qualquer culto não-cristão. E o modo de cultuar os orixás e os espíritos destes ancestrais africanos e indígenas ainda era através do sincretismo.

Mas ao mesmo tempo surgia na Europa o Espiritismo. Isso de certa maneira facilitou a aceitação da mediunidade de incorporação no Brasil e o surgimento da Umbanda. Por outro lado, gerou mais intolerância e mais sincretismo. Mas isso é outra história…

Zélio de Moraes e médiuns da corrente na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade (década de 1960)

Só em 1908 é que a Umbanda se tornou de fato uma religião. A história muitos já conhecem…. Tínhamos então o cristianismo como religião predominante, o candomblé, a umbanda e o espiritismo chegando no Brasil. Mas não era (ainda não é) tão simples assim. Não era “cada um no seu quadrado”. A Igreja Católica tentava conter à força (através da polícia e de governantes católicos) a proliferação dos candomblés e casas de umbanda. Alguns candomblés aceitavam a incorporação de caboclos e pretos-velhos (mais sincretismo), enquanto outros não aceitavam a incorporação de eguns (espíritos dos mortos). Alguns candomblés mantinham uma relação mais cordial com a Igreja Católica para serem poupados da perseguição da polícia. E as casas de umbanda passaram a dar nomes de santos católicos aos seus locais de culto pelo mesmo motivo.O espiritismo era mais aceito pelas elites, então algumas casas de umbanda também passaram a se chamar “centro espírita são xx”. E desta confusão toda surgiram tradições culturais que até hoje são mantidas: a lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim na Bahia, o hábito de encerrar as atividades do terreiro na quaresma (leia mais), o fato de chamarmos os orixás de ‘santo’, o ilê axé de ‘casa de santo’, o babalorixá e a iyalorixá de ‘pai de santo’ e ‘mãe de santo’, e inúmeras outras.

 

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