O historiador e pesquisador José Beniste, em seu livro “Òrun-Áiyé “, fez um bom resumo sobre estas modificações que foram realizadas no culto tradicional yorubá, no princípio do candomblé no Brasil (grifos meus):

1º – O culto a Ibéji (orixás gêmeos), que determinava a morte de um dos gêmeos, por julgarem um fato anormal, foi abolido.

2º – Os cortes feitos no corpo, nos ritos de iniciação, foram substituídos por marcas de pintura de efun (um tipo de argila branca), e riscos que lembravam a tradição da família real de Òyó.

3º – Todos os ritos seriam internos, abolindo as procissões aos lugares sagrados, como na África.

4º – O local de culto (Candomblé) seria centralizado com culto a todos os Òrìsà e o seu dirigente, conhecedor de todos estes cultos.

5º – O número de Òrìsà cultuados seria limitado às exigências da nova terra.

6º – Rituais específicos, que eram realizados em terras Yorubá e ligados às tradições de cidades, foram revistos e outros criados como Ìpàdé, Ipètè, Lórogún, Olúbájè e, aqui, concentrados em um único local.

7º – O culto e iniciação ao Òrìsà passaram a ser individuais e sem a noção da família biológica, criando assim a família-de-santo. O transe de expressão substitui o transe de possessão.

8º – A utilização do osù como marca que distingue o iniciado substitui todas as outras formas utilizadas em terras Yorubá, com o Osù representado por um tufo de cabelos deixado no alto da cabeça raspada, nos rituais de Sàngó (não apenas nos rituais de Xangô)

9º – Substituição dos animais para os ritos de sacrifício e folhas litúrgicas por outros similares brasileiros.

10º – A participação de homens na iniciação seria apenas na qualidade de Ògán, o que não daria direito a manifestações de Òrìsà e participação da roda-do-candomblé. Este pensamento visou impedir a tendência do homossexualismo masculino no candomblé ora organizado. Caberia somente às mulheres a participação nas danças rituais.

11º – Readaptação dos dias da semana yorubá de quatro dias para a semana ocidental de sete dias, inserindo os Òrìsà para cada dia e o ritual do Àmàlà para as quartas-feiras.

12º – A definição dos 16 búzios – Mérindílógún – como forma de consulta, em detrimento a outras formas mais tradicionais como o Òpèlè e o Ifá, foi devido a sua complexidade, que obriga a inúmeras recitações em linguagem nativa. Ademais, como estas práticas eram restritas exclusivamente aos homens, e o comando religioso seria próprio das mulheres, os búzios foram uma opção viável, tanto para homens como para mulheres. Este processo modificou o posicionamento dos Odù de 1 a 16, da escala original, e os caminhos foram reduzidos para 70, o que permitia uma leitura mais simples e bem objetiva. Esta modalidade ficou conhecida como Sistema Bámgbósé.

Trecho do livro Òrun-Áiyé, O encontro de dois mundos, de José Beniste.

José Beniste – Escritor, historiador, pesquisador, conferencista e autor de ensaios sobre os problemas dos diversos cultos de raízes africanistas, foi iniciado no Candomblé Ketu em 1984, pela Iyalorixá Mãe Cantu de Airá Tola do Ilê Axé Opó Afonjá.