Essa pergunta me foi feita hoje pela manhã, e me fez parar por alguns minutos para escrever.

Que a Semana Santa é uma tradição judaico-cristã todo mundo já sabe. Mas a tradição da semana santa, ao menos aqui no Brasil, vai além destas religiões. A grande mídia não nos deixa esquecer o preço do bacalhau e dos ovos de páscoa, o candomblé e a umbanda incorporaram a semana santa em seus calendários, e acabamos repetindo práticas “religiosas” sem pensar nem mesmo nos objetivos e motivos. Repetimos por hábito, por tradição familiar, por pressão social… Mas não por acreditarmos que aquilo realmente é bom para nossas vidas.

Antes de perguntarmos qual o dia que não devemos comer carne, devíamos perguntar o motivo e o objetivo de não comer carne, não acham?

Não quero aqui entrar nos meandros da tradição judaico-cristã, mas é preciso explicar que na verdade a igreja católica não recomenda apenas que os fiéis não comam carne na sexta-feira santa. Ela recomenda o jejum neste dia. A grande questão não é o jejum da carne, mas a penitência! O jejum para o cristão tem um objetivo muito claro: reprimir o desejo exagerado, a cobiça, a ambição, o anseio pelos desejos sensuais. Ou como disse São Tomás de Aquino “o jejum foi estabelecido pela Igreja para reprimir as concupiscências da carne, cujo objeto são os prazeres sensíveis da mesa e das relações sexuais“.

Devemos então ter em mente que o jejum da carne é um ato didático. Sim didático mesmo! Os cristãos do século I tinham um texto que continha a Doutrina dos Doze Apóstolos, chamada justamente de didaqué, que era utilizada para o catecismo destes primeiros cristãos.

Mas vamos voltar à questão do jejum da carne… Porque esse jejum deve ser especificamente de carne?

É preciso voltar um pouco no tempo e lembrar alguns dados históricos para responder a essa pergunta. Jesus viveu na Galileia, uma região entre o mar Mediterrâneo e o mar da Galileia com abundância de pescados. Pelo menos sete de seus discípulos eram pescadores, o que demonstra que o peixe era um dos principais alimentos na região em que Jesus viveu. Quanto à carne de outros animais, a Bíblia (e outras referências históricas) não indica o consumo de carne de boi ou vaca, mas sim a carne de cordeiro. No entanto, o consumo do cordeiro não fazia parte das refeições diárias das famílias daquela época! Devemos lembrar que naquele tempo não existiam geladeiras e freezers, o que dificultava muito a conservação dos alimentos. Dessa forma, comer carne de cordeiro ou outros animais de maior porte era considerado um banquete, pois era preciso sacrificar e comer de uma só vez.

Assim fica mais fácil entendermos que a carne que é citada nos ensinamentos judaico-cristãos representa aqueles “prazeres sensíveis da mesa” de que falava São Tomás de Aquino.

Mas vamos voltar aos nossos tempos e ao nosso país?

O consumo de carne vermelha no Brasil está entre os maiores do mundo. Bem diferente do que acontecia na Galiléia! Para nós a carne de gado está no mesmo nível de consumo que os peixes estavam para os primeiros cristãos. Por outro lado, o bacalhau importado que tantas famílias compram durante a semana santa, é o cordeiro daqueles tempos. É um prato que representa os “prazeres sensíveis da mesa” em nossa época!

Depois de refletir sobre tudo isso, aquela pergunta que me foi feita hoje pela manhã deixa de fazer qualquer sentido. Em nosso tempo e nosso país, deveríamos jejuar de bacalhau! Aliás, é bom lembrar que o jejum recomendado pela Igreja Católica inclui sobremesas, bebidas alcoólicas e sexo!

Sendo cristãos, umbandistas ou candomblecistas, a semana santa pode ser uma oportunidade para refletirmos. Refletirmos sobre o significado de nossas ações e o sentido de nossas vidas. Se quisermos seguir tradições familiares ou sociais, e nos fartarmos de bacalhau, vinho e cerveja, que assim seja. Mas porque chamar de tradição religiosa se o seu objetivo se perdeu no tempo?

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