Ouvi este antigo ditado chinês há muitos anos e nunca esqueci. Talvez ele seja a própria razão do Buscas & Trilhas! Por causa dele é que busquei tanto, estudei tanto e me empenhei tanto nos caminhos religiosos que trilhei. E posso dizer que esse ditado me ajudou muito.

Em geral buscamos “o mestre” na figura de um salvador, seja ele Jesus, um santo católico, um preto-velho de umbanda, um pastor, um padre, ou um babalorixá. É natural precisarmos de alguém que nos conduza, que nos mostre os caminhos, que nos entenda… Mas ao longo da vida nos decepcionamos muito, não é? Acabamos percebendo que pastores, padres, pais de santo, médiuns e rabinos, antes de tudo são pessoas e não super-homens. Quem nunca se decepcionou com líderes espirituais? O problema é considerarmos alguém como salvador, por mais iluminado que este seja! Nem mesmo as entidades de umbanda e os Orixás são salvadores! Já ouvi muitas vezes de exus, caboclos e pretos-velhos, que eles não podem fazer tudo, e que antes de tudo existe a Lei do Mérito.

Mas já parou pra pensar que quando colocamos uma outra pessoa no papel de salvador, nos colocamos imediatamente como vítimas? Então… Ao invés de buscarmos conhecimento, entendimento e aprimoramento espiritual, passamos a querer a salvação (porque somos vítimas). E o próprio sacerdote muitas vezes acaba se colocando mais num papel de guru e orientador pessoal, do que de orientador espiritual. Sim, porque o papel de qualquer sacerdote é nos levar ao aprimoramento espiritual, à mudança dos sentimentos e pensamentos que nos impedem de progredir como seres humanos. Alguns até nos fazem acreditar que têm super-poderes, mas podes crer que não é bem assim!

É natural que alguns sacerdotes (não a religião em si) tentem impor o medo entre os fiéis. O medo sempre foi uma arma de dominação. Sim, religiosos muitos vezes tentam dominar os fiéis através do medo, e não lhes orientar com base nos ensinamentos. É comum que sacerdotes pensem que os fiéis só vão se “manter na linha” se os adeptos temerem a Deus, ao diabo, a exú ou aos orixás. Colocam-se numa posição de intermediários entre Deus e o resto dos reles mortais, e não de intérpretes e orientadores. E “ai de você” que se atreve a questionar, a pensar, a querer conhecer mais profundamente! Mas não é culpa destes sacerdotes…. Muitas vezes eles mesmos são vítimas do medo. As elites religiosas temem que o grupo religioso que são responsáveis se desagregue se tiver a liberdade de questionar. E temem perder a liderança do grupo se perceberem que não possuem todas as respostas.

É lógico que todos nós (toda a humanidade mesmo) só consegue viver em sociedade a partir de “leis morais”, do que é aceitável ou não pelo grupo que convivemos. E em geral a interpretação dos textos sagrados de todas as religiões, nos impõem estas “leis morais”. Mas se nos basearmos mais no medo, nas proibições e até mesmo em preconceitos, do que na própria consciência para viver em sociedade, como iremos nos aprimorar espiritualmente?

O que este antigo ditado chinês tenta nos mostrar é que o mestre pode ser necessário, mas é preciso antes de tudo que estejamos suficientemente preparados para que ele “surja”, ou seja, para que ele possa te auxiliar realmente.

O conto Koan (narrativa Zen Budista) abaixo pode nos auxiliar a compreender melhor esta reflexão, com o entendimento de que se aplica a adeptos de todas as religiões e doutrinas.

Certo dia um mestre falava para seus alunos sobre a natureza da Perfeição. Um dos discípulos, cético quanto à possibilidade de poder realmente algo chegar à perfeição concretamente e incapaz de compreender o sentido do que o Mestre falava, observou próximo ao grupo um cesto de maçãs e disse ironicamente:

“Mestre, fiquei fascinado com sua explicação sobre a Perfeição. Poderia o senhor, para ilustrar o que acabou de dizer, me dar uma maçã perfeita?”

O Mestre calmamente olhou dentro da cesta, retirou uma maçã e entregou ao aluno. Pegando-a, este viu que a fruta estava com uma parte podre num dos lados. Olhou para o professor e disse arrogante:

“Essa é a perfeição de que fala? Esta maçã tem uma parte podre!”

“Sim.”, replicou o Mestre. “Mas para seu nível de compreensão e discernimento, esta maçã podre é o máximo de maçã perfeita que poderás obter…”

Você gostou do texto? Que tal compartilhar e nos seguir?