Quem é de umbanda ou candomblé já deve estar acostumado com a rotina de seu próprio terreiro (barracão ou centro) durante a quaresma. Tanto no candomblé quanto na umbanda existem rituais e práticas próprias neste período. Mas este é um assunto extremamente polêmico, pois a quaresma, em si, não é um ritual que faça parte das religiões de matriz africana.

É natural que frequentadores ou admiradores destas religiões (e até mesmo médiuns e iniciados), que não tenham acesso a explicações bem fundamentadas, fiquem confusos com a inserção da tradição católica no candomblé e na umbanda. Mas no fundo a explicação é simples: sincretismo.

Confesso que já fui um crítico dos terreiros que não respeitavam o período da quaresma. Quando mais novo fui levado a acreditar que era uma tradição religiosa, que era um período de resguardo para todos os filhos de santo. Mas como nunca me contentei com explicações superficiais, sempre desconfiei que existia algo de errado nessas justificativas.

Hoje em dia muitos sacerdotes de umbanda e candomblé já mudaram seu modo de lidar com estas tradições, entendendo que foram impostas pela extrema intolerância de períodos anteriores da nossa história. Mas muitos outros continuam associando o culto dos orixás às tradições cristãs. E é por isso que ainda vemos terreiros de candomblé e centros de umbanda fechando ou limitando o atendimento nessa época.

O sincretismo foi necessário para a sobrevivência do culto aos orixás, do candomblé e umbanda. Mas em nossos dias como explicar a continuidade destas práticas? Já ouvi pessoas dizendo que “a umbanda é cristã”, por exemplo. Ora, é preciso entender que sincretismo não é o mesmo que fusão de religiões, e sim uma maneira criativa e inteligente que os escravos encontraram para enganar os seus senhores e continuar o culto aos seus orixás. E mesmo após a abolição da escravatura esta intolerância continuou. (saiba mais).

Voltando ao assunto…. No fundo todo mundo sabe que a quaresma é uma prática católica. Mas os antigos pais e mães de santo não explicavam simplesmente que era só uma maneira de não sermos perseguidos. Talvez nem mesmo soubessem! Eu mesmo vivi num tempo em que alguns assuntos eram tabu. Não podíamos nem mesmo perguntar. Era awô, segredo! A tradição era passada boca-a-ouvido. E aquele filho de santo a quem não era permitido perguntar, mais tarde tornava-se um pai de santo e continuava a tradição de repetir as práticas sem saber o real motivo. Mas outros encontravam maneiras de explicar…. Diziam: “os orixás estão dormindo”, “os exus são soltos nessa época…”. E os pobres abiãs (iniciantes) e iaôs (iniciados), que não podiam perguntar muito, ficavam sem entender o que significava exatamente aquilo.

Algumas casas de candomblé antigamente praticavam o ritual do lórogún na quarta-feira de cinzas dando início à quaresma. Pelo que sei poucas casas ainda fazem esse ritual. Mas era também uma maneira de justificar, com rituais africanos, a decisão de encerrar as atividades até a semana santa. Sim, era só uma maneira de justificar o sincretismo. Mas de uma maneira ainda mais criativa, com o apoio de itans (mitos yorubá).

Não estou aqui julgando sacerdotes, terreiros ou centros. Nem mesmo dizendo se devem ou não encerrarem as atividades em certo período do ano. Mas para a preservação da tradição religiosa é preciso irmos mais fundo. As religiões de matriz africana não são dogmáticas. Ou seja, não existem verdades inquestionáveis. Podemos e devemos questionar os motivos para certas práticas e não apenas aceitar explicações superficiais.

Aqueles que precisam de socorro espiritual talvez não possam esperar mais de 40 dias para serem atendidos! E se aceitamos explicações como a de que neste período os orixás “dormem” e entidades mais evoluídas não podem trabalhar, nós mesmos ficaríamos à mercê de influencias espirituais negativas durante todo este tempo. Vamos refletir! Nosso calendário foi criado por homens (apenas para uma organização temporal) e não pelos orixás, por Jesus ou por qualquer outro representante divino. Portanto, nossos orixás, entidades e mentores não se limitam a este tempo medido por nós. E mesmo que você acredite que a umbanda é cristã, certamente não segue fielmente seus dogmas. Caso contrário não seria umbandista e sim apenas cristão.

Finalmente, não podemos dizer se é correto fechar ou não os terreiros e centros na quaresma. E não devemos julgar os motivos dos sacerdotes que o fazem. Afinal de contas este pode ser um período de descanso para o sacerdote e seus auxiliares, um período de reenergização e de estudo. Porque não?

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