Nos últimos anos tenho tido a oportunidade de conversar com entidades e médiuns mais antigos de umbanda sobre algumas dificuldades que são comuns em terreiros de umbanda. Em uma conversa recente com um dirigente, chegamos à conclusão de que o sentimento religioso é o que faz toda a diferença em um terreiro. Mas o que entendemos como sentimento religioso? Muitos diriam que é a fé… Concordamos que a fé é um ingrediente necessário, mas entendemos que não é apenas isso.

O sentimento religioso é algo bem simples, e constantemente ouvimos pretos-velhos, caboclos, ciganos e exús nos falando sobre isso. Eles nos falam sobre a humildade, o perdão, a caridade e vários outros sentimentos que devemos ter quando nos dispomos a entrar numa corrente mediúnica. Mas nós, seres humanos em geral, temos defeitos, manias, maus hábitos, defeitos morais e espirituais que as entidades têm de conviver. Eles sabem que somos propensos à inveja, ao ciúme, à vaidade, ao orgulho e a tantos outros sentimentos que nos afastam do caminho de nossa própria evolução e dificultam o trabalho mediúnico. A lógica é bem simples: sentimentos negativos trazem resultados negativos! Eles sabem mais do que nós sobre nossas dificuldades, sobre nossas dores e necessidades. Mas por outro lado eles precisam que nós estejamos prontos para abolir estes sentimentos negativos de nossas vidas. Precisamos estar em “estado de papel em branco” para que eles possam escrever um melhor caminho para nós e para aqueles que procuram ajuda no terreiro.

De todos os sentimentos negativos que vemos num terreiro, alguns se destacam e causam problemas muitas vezes irreparáveis: a inveja, a vaidade e a arrogância. São sentimentos que levam o médium a lidar com os irmãos de uma maneira que traz consequências extremamente ruins. São médiuns que se acham superiores aos demais, que fazem intrigas, que querem aparecer, que acham que suas entidades são melhores do que as outras, enfim, que não se enquadram no ideal umbandista de humildade.

O que nem sempre vemos é que por trás destes sentimentos e comportamentos inadequados, existem outros sentimentos que podem ser corrigidos. A inveja, por exemplo, pode vir de pessoas que no fundo se sentem inferiores aos outros. A arrogância e a vaidade podem vir do medo de ser julgado ou da vergonha por alguma característica pessoal. São pessoas que em geral não se aceitam como são ou não aceitam suas condições de vida.

Muitas vezes julgamos e reclamamos de pessoas com estes sentimentos. Devemos saber que é muito difícil que a própria pessoa veja em si tais sentimentos. Com muita paciência e amorosidade nossos orixás e entidades vão auxiliando estes médiuns, mas o papel dos dirigentes nesse caso é fundamental para evitar problemas maiores. Um terreiro onde existam médiuns com tais sentimentos pode sofrer graves consequências.

A maledicência, por exemplo, ocasionada pela inveja, ciúmes ou arrogância, acaba em um jogo pernicioso de “jogar uma pessoa” contra as outras, amigos contra amigos, irmãos contra irmãos, pai/mãe de santo contra os filhos, os filhos contra o pai/mãe de santo. As situações podem chegar a tal ponto que o médium passa a ser anímico, influenciando suas “entidades” que passam a também fazer intrigas com comentários tais como: “Tem uma pessoa aqui no terreiro que diz ser sua amiga, mas que vai te passar a perna!”, “Tem gente aqui dentro de olho na sua mulher, tome cuidado!”.

São situações que acontecem com frequência nos centros e terreiros de umbanda, e que podem deixar marcas profundas no próprio terreiro.  Bons médiuns acabam se afastando, o terreiro perde a credibilidade, a assistência perde a confiança, e a desarmonia acaba imperando entre os irmãos e dificultando o trabalho mediúnico, que é a razão principal de existência do terreiro.

A maledicência é apenas um dos comportamentos resultantes de sentimentos errôneos dos médiuns. Atitudes de arrogância e vaidade também são empecilhos para o trabalho das entidades de um terreiro. E para que isso não ocorra muitas vezes o guia chefe da casa ou o próprio sacerdote, acaba tendo que tomar medidas drásticas, como a suspensão, a bronca pública ou mesmo a expulsão do médium do terreiro.

Mas existe uma “vacina” para evitar todo esse desconforto: ter um verdadeiro sentimento religioso, a vontade genuína de aprimoramento pessoal. Se o médium tiver sempre em mente que está ali para esse aprimoramento, reconhecendo que está ali para aprender e servir como instrumento, sem julgar os irmãos ou o pai de santo, dificilmente cairá no erro de agir com arrogância e vaidade, ou ser maledicente com quem quer que seja. Entenderá que apenas sendo humilde poderá desempenhar seu papel como instrumento da espiritualidade. E caso essa vontade genuína não seja forte o bastante, o médium deve pensar seriamente em ficar na assistência!

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