Graças à internet atualmente muito se fala sobre a intolerância religiosa no Brasil. De
tempos em tempos vejo denúncias de agressões contra adeptos do candomblé e da
umbanda, e até mesmo ataques contra terreiros. É claro que isso não é de hoje, e não é exclusivo do Brasil. Os noticiários mostram estes conflitos semanalmente. Vemos isso no conflito entre Israel e Palestina, nos atos de terrorismo do Estado Islâmico (ISIS) e até mesmo no radicalismo do novo presidente americano. Mas andei refletindo sobre a origem desta intolerância para conversar aqui com vocês.

As religiões em geral explicam a sua origem e a sua doutrina aos adeptos através de estórias sagradas. O catolicismo usa a Bíblia, o judaísmo a Torá, o islamismo usa o Alcorão, os yorubá usam os ìtàn mimó (mitos sagrados), e por aí vai. Até aí tudo bem. Sendo escritas ou transmitidas oralmente, estas estórias são fundamentais para a organização e transmissão do conhecimento. O problema surge no entendimento e interpretação destas estórias!

Muitas destas estórias são escritas em forma de mitos. Muitas vezes com uma linguagem poética e simbólica. Não é possível levar tudo “ao pé da letra”. É preciso interpretar o que o autor queria dizer no tempo em que foi escrito, levando em conta o povo, o momento político e histórico. O exemplo mais claro é o do cristianismo e sua Bíblia. Sabemos que cada livro bíblico foi escrito por um autor, que viviam em lugares diferentes e em séculos diferentes. Alguns destes sofriam perseguições políticas, algumas estórias vieram de lendas de Canaã. Em certas partes da Bíblia Deus (Javé) fez o mundo num único dia, em outras esse mesmo Deus (agora Elohim) levou 6 dias. Fica claro que não se pode entender estas estórias sagradas como fatos históricos.

Mas infelizmente muitas pessoas entendem o que está escrito nestas estórias como fatos que não podem ser contestados. Ou seja: dogmas. Isso acontece em todas as religiões, incluindo espiritismo, candomblé e umbanda, que teoricamente são religiões muito próximas entre si. Já ouvi babalorixás fazendo pouco caso da umbanda porque os médiuns incorporam eguns (espíritos dos mortos). Já vi espíritas menosprezando umbandistas porque incorporam pretos-velhos e caboclos. E já vi umbandistas desdenhando do candomblé e dos espíritas por motivos contrários. É claro que existem muitas exceções atualmente. Mas no fundo muitos outros “incorporam” suas verdades e as usam como armas. Não pensam em se questionar sobre a validade do que o outro faz.

É claro que um adepto não vai questionar a palavra de seus sacerdotes e de seus livros sagrados. O problema é acharmos que esta palavra, que para nós é sagrada, é uma verdade absoluta para toda a humanidade. Obviamente este pensamento gera discórdias pessoais entre adeptos de religiões diferentes e até mesmo guerras entre nações.

175291903_0Não podemos transformar textos sagrados em dogmas: verdades absolutas, definitivas, imutáveis, infalíveis e inquestionáveis. Sim, estes textos sagrados podem ser “revelações divinas”, mas o caminho que estes textos tomaram até chegarem até nós é longo. Foram revelados, entendidos, traduzidos, compilados, transmitidos e retransmitidos, traduzidos de novo…. E cada homem que o traduziu e o transmitiu, o fez de acordo com o seu próprio conhecimento sobre o mundo, com seu entendimento sobre sua época, e muitas vezes como uma forma de contestar outras doutrinas religiosas.

Inúmeros povos e civilizações já habitaram nosso planeta, e outros tantos povos ainda habitam, cada povo com suas crenças. Nós, aqui no ocidente, acreditamos na existência de um único Deus. Um Deus onipresente, onisciente, absoluto. Isto também é um dogma, mas não vamos questioná-lo.  Aceitando como verdade a ideia de um Deus único não estamos dizendo que este é o mesmo Deus de toda a humanidade? Pois bem… E este Deus único não pode revelar verdades a sacerdotes de diversas religiões? Claro, né?! Deus pode tudo! Pode revelar a verdade a rabinos, pastores, padres, mestres, babalorixás, e até a mim e a você! Então quem pode dizer que uma verdade é maior que a outra?

Os textos sagrados de todas as religiões são princípios morais, organizadores de uma doutrina religiosa. Mas quero lhes dizer que não são imutáveis, pois Deus vem revelando verdades ao longo dos séculos de acordo com as necessidades de um povo, de um tempo, de uma região. pagelancaSe acreditamos na onipresença de Deus e na sabedoria divina, quem somos nós para questioná-Lo? Quem somos nós para questionar se um pajé comunica-se com espíritos ou com Deus através de transes mediúnicos provocados por chás, cânticos e danças rituais? E como podemos questionar a existência de religiões que acreditam na influência de deuses? Se nosso Deus onipresente e onisciente admite a existência destas crenças, o sacerdote desta religião não pode ter acesso à revelação divina tanto quanto o sacerdote de nossa religião? Ou podemos admitir que nosso Deus é um deus parcial, um deus mais interessado em conflitos do que com a convivência pacífica entre os homens?

A intolerância e os conflitos surgem quando acreditamos que a verdade revelada pelos textos sagrados é imutável, atemporal e inquestionável. Quando achamos que compreendemos muito bem a mensagem que o autor (ou intérprete) queria passar, mesmo quando este pertencia a outra cultura e está distante de nós por séculos.  Quando achamos que a Palavra (o Verbo, a revelação em si) está totalmente contida nos textos.

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