Poucas vezes paramos para pensar sobre o que é realmente importante em nossas religiões, não é mesmo? Quando entramos em uma casa de santo, seja de umbanda, candomblé ou espírita, acreditamos que tudo o que é feito lá dentro (ou fora) faz parte da doutrina espiritual da religião. Mas estudando um pouco mais podemos ver que não é bem assim.

Esta semana assisti a um vídeo no facebook em que um sacerdote da religião tradicional yorubá – Bàbá Ònífá Awodélé Ilésire Zarcel – falava sobre a diferença entre o que é cultural e o que é espiritual na religião yorubá. No vídeo ele diz sobre algumas tradições yorubá que são apenas culturais e que não fazem sentido em nossa cultura, chegando a ser impossível a prática de algumas destas tradições. Na tradição yorubá um iniciado de Xangô, por exemplo, deve se vestir sempre de vermelho, não deve nunca raspar a cabeça e não pode carregar nada acima da própria cabeça, devendo preferencialmente usar o cabelo com tranças. Em nosso país isso seria impossível para a grande maioria das pessoas, levando-se em conta questões profissionais e sociais. Outro exemplo é o da poligamia. Existem versos de odus (caminhos indicados por Ifá) que recomendam que um homem tenha mais de uma mulher. Lá eles podem se casar com várias mulheres desde que tenham dinheiro para sustentá-las. Aqui não. Nossa legislação não permite a poligamia. Devemos entender que na Nigéria e e outras partes da África, a religiosidade e a cultura não se diferenciam como aqui no Brasil. Um iniciado representa o orixá, não apenas dentro do terreiro, mas também socialmente.

Elegun manifestada em Iemanjá durante um festival na Nigéria

E mesmo aqui no Brasil devemos perceber estas diferenças entre o cultural e o espiritual, tanto na umbanda quanto no candomblé. Existem várias tradições que podemos identificar como culturais e que não fazem parte da raiz religiosa, mas nesse artigo quero falar apenas sobre a tradição de dar presentes para Yemanjá no mar.

Essa história de dar presentes para Yemanjá no mar, associá-la às sereias e considerá-la como a senhora dos oceanos é relativamente recente. Yemanjá passou de orixá do rio na África, para orixá do mar no Brasil, precisamente em Salvador em 1924. A pesquisadora Renata Barcelos no site orisabrasil.com.br explica esta história de uma maneira completa, mas vou tentar resumir abaixo por saber que textos longos são um problema para algumas pessoas.

Odo Ogun – Rio Ogun

Antes de tudo é preciso entender que Yemanjá é uma deusa do rio! Pierre Verger já citava Yemanjá como deidade do rio Ògùn em seus livros. O antropólogo Willian Bascom reafirma isso em seu livro Sexteen Cowries (16 búzios) publicando 5 itans onde Yemanjá se transforma no rio Ògùn. Através da internet também podemos ver em vídeos e registros fotográficos que ainda hoje na Nigéria ela é cultuada nos rios. E nós mesmos saudamos Yemanjá como Odo Iya (mãe do rio em yorubá).

Então, qual o motivo de tantos praticantes da umbanda e candomblé, além de turistas, cultuarem Yemanjá no mar?

Dique do Tororó 1850

Obviamente ela saiu da África como uma deusa das águas doces e chegou ao Brasil da mesma forma. Mas por volta de 1924 houve uma grande escassez de peixes na Praia do rio Vermelho em Salvador (praia oceânica). Nesta época, segundo relatos preservados em livros de Edison Carneiro, Nina Rodrigues e outros, Yemonjá era cultuada no Dique do Tororó (represa de água doce construída no século 17). Os pescadores do rio Vermelho buscaram então ajuda espiritual, sendo recomendados pelos próprios compradores a oferecer um presente à “Mãe D’Água”.

Pescadores do Rio Vermelho na década de 70.

Orientados pela Iyalorixá Julia Bogun, 25 pescadores fizeram a primeira oferenda a Yemanjá , levando flores e perfumes para alto mar em uma caixa de sapatos. A princípio ficaram com medo de fazer aquela “bruxaria” e resolveram mandar celebrar uma missa antes de partirem.

Podemos ver claramente que o respeito dos pescadores pela religião católica era grande, apesar de recorrerem à divindade africana, o que explica a data escolhida para as oferendas que se tornaram anuais – 2 de fevereiro – dia de Nossa Senhora dos Navegantes. Com o tempo eram simples oferendas de pescadores, um ritual que por muitos anos era chamado somente de “Presente da Mãe D’Água”. Mais tarde se popularizou a ponto de entrar para o calendário turístico de Salvador.

“Reinava com coragem, porque não havia na beira do cais quem tivesse mais confiança em Iemanjá do que ele. E um dia teria uma canoa sua, sem dúvida, que já pedira na festa do Dique e mandara um frasco de perfume para que a Princesa de Aiocá (assim chamam os negros a Iemanjá) tivesse os cabelos sempre cheirosos. Ela lhe daria uma canoa, que ele era o mais entusiasmado na sua festa, e ainda um dia seria ogã do seu candomblé. “ Mar Morto, p. 39

Dique do Tororó atualmente

Jorge Amado, na década de 40, comprou uma casa na Praia do Rio Vermelho e a partir do contato próximo com estes rituais, denominou Yemanjá poeticamente de “dona dos mares” (em seu livro Mar Morto), apesar de saber que era cultuada no Dique do Tororó como cita no mesmo livro.  Sendo ele de tão grande notoriedade acabou influenciando outros autores, que se deixaram levar mais pelo romance do que pela correção dos rituais afro descendentes. E esta falta de correção foi se disseminando… Ano após ano os rituais de entrega de oferenda a Yemanjá foram se espalhando através de uma repetição mecânica e inconsciente de praticantes pouco informados e turistas desavisados. Pontos de Umbanda foram sendo criados com esta mesma incorreção e compositores da MPB ajudaram a popularizar a crença de que Yemanjá é a “Rainha do Mar”.

Mas apesar disto, devemos saber que Yemanjá não se importa de ser cultuada no mar. Não é um erro cultuá-la no mar, pois é um orixá feminino ligado a todos os corpos d’água. Ela tampouco se importa de ser reverenciada no dia 2 de fevereiro. Mas devemos saber que estes rituais fazem parte de tradições culturais apenas, e que não fazem parte dos ritos devocionais, quer seja no Brasil ou em terras yorubá.

Fontes: Renata Barcelo, site orisabrasil.com.br; Blog Mais de SalvadorJorge Amado, Mar Morto, Edição Digital.

Imagens: 01 – wikipedia; 02 – jibolutaiwouk.org; 03 – Blog São Salvador da Bahia de Todos os Santos; 04 – Blog Mais de Salvador; 05 – Blog 365 motivos para amar Salvador

Nota: Atualmente no Dique do Tororó existem esculturas de orixás do artista plástico Tati Moreno. Os orixás representados são Yansã, Nanã, Ogum, Oxalá, Xangô, Yemanjá , Oxum e Oxossi.

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